ENTREVISTA – JOSÉ LÁZARO BOBERG

Editora EME      sexta-feira, 25 de agosto de 2017

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JOSÉ LÁZARO BOBERG é formado em Pedagogia e em Direito. É advogado e mestre em Direito. Foi professor do ensino médio e de ensino superior. Professor emérito e ex-Diretor da Faculdade Estadual de Direito do Norte Pioneiro, de Jacarezinho (PR), onde, há muitos anos, vem atuando no movimento espírita, sendo fundador e primeiro presidente do Centro Espírita Nosso Lar.

Participa também do Centro Espírita João Batista, onde criou o Clube do Livro Espírita, Banca e Livraria. Como expositor é convidado para palestras em várias casas espíritas pelo Brasil.

Vereador por duas legislaturas, radialista e comunicador em diversos veículos de comunicação, José Lázaro Boberg é autor de 16 livros, sendo 14 publicados pela EME, como O evangelho de Judas.

Nesta entrevista exclusiva, ele nos fala sobre seu livro O evangelho de Maria Madalena, lançamento da Editora EME. Confira:

 

Depois de O evangelho de Judas, por que escrever O evangelho de Maria Madalena?

O estudo sobre as origens cristãs sempre me fascinou, principalmente após tomar contato com os evangelhos da linha gnóstica cristã, considerados heréticos pela Igreja. Depois de lançar o Evangelho de Tomé – o elo perdido, pela Editora Chico Xavier – um dos mais importantes – encontrado, ao lado outros 52 escritos gnósticos, numa urna de barro numa caverna, em Nag Hammadi, do Egito, no ano de 1945, continuei a pesquisar esse pensamento filosófico. Descobri, assim, uma nova linha de pensamento sobre a importância do outro lado da Bíblia e dos chamados apócrifos, banidos pela Igreja, não inseridos na Vulgata por São Jerônimo, os quais muito contribuem para com a compreensão da verdadeira mensagem de Jesus de Nazaré. Então, depois deste, veio outro apócrifo, O Evangelho de Judas, também recentemente descoberto, próximo aos bancos de areia do Rio Nilo, perto El Minya, no Egito em 1978.. Na sequência, tomamos contato com o Evangelho de Maria Madalena, também gnóstico, fazendo parte dos Evangelhos perdidos, publicado em 1955.

Fale sobre a obra: o que o leitor irá encontrar neste seu novo estudo?

Como se trata de pesquisas científicas por PHDs, em estudo de religião, a obra trará uma ‘reviravolta’ sobre a imagem que se criou em torno dela. Haverá um resgate sobre as verdades e as lendas que se construíram sobre a figura feminina mais importante do Cristianismo. O estudo responderá questões sobre o que dizem sobre ela, os Evangelhos canônicos (Oficiais) e dos apócrifos, condenados pela Igreja, sendo seus seguidores perseguidos e mortos. Eram cristãos que pensavam de ‘modo diferente’. Há também, e que tem feito a cabeça de muita gente, em livros e filmes, à questão de que Maria Madalena teria sido esposa de Jesus e com o qual teria tido 2 filhos. Daremos uma nova visão sobre a história de que perdurou até hoje, de que ela teria sido pecadora (no sentido de meretriz). É ponto fundamental nos estudos. Para alguns pesquisadores, ela poderia ter sido a criadora do Cristianismo, pois foi com ela que se ‘iniciou’ a fé que crê na chamada ressurreição, sem qualquer comprovação científica.

Por que Maria Madalena é considerada uma das personagens femininas mais fortes da literatura antiga?

Maria de Magdala ou Maria Madalena é a figura feminina mais citada no Novo Testamento em 13 (treze) vezes, mais ainda que Maria, mãe de Jesus. Após a descoberta dos Evangelhos gnósticos, surge outra figura, outra face, não contada pelos canônicos da Igreja: Uma mulher que era a líder entre os apóstolos de Jesus de Nazaré. Nada da imagem da mulher submissa, pecadora que aparece sempre na clássica figura de uma mulher ajoelhada aos pés de Jesus em penitencia aos seus erros.  Na verdade, era a que mais compreendia o pensamento de Jesus, a ponto de causar ciumeira de Pedro. É citada nos Evangelhos gnósticos de que ela era única entre os apóstolos que atingira o maior nível de perfeição, falando Jesus, abertamente, no livro gnóstico O Pistis Sofia (Pistis) e Sabedoria (Sophia): “Bendita sejas tu, Maria: pois é alguém cujo coração está voltado para o Reino dos céus mais do que qualquer outro de seus irmãos”. (Máxima 17). Ela acompanha Jesus na sua crucificação e, depois na chamada ressurreição (Aqui já é questão de fé).

Segundo alguns estudos, ela seria um dos mais importantes apóstolos, uma pregadora e uma santa. Isso confere com seu estudo? É esta Madalena que encontraremos em seu livro?

É bem isso, enquanto nos canônicos, ela é interpretada como pecadora (meretriz), da qual Jesus tirara sete demônios, para os gnósticos ela é uma santa. Conforme nos referimos, quando escrevemos  sobre os cátaros, no texto 2, deste estudo, informam os historiadores que uma corrente cristã gnóstica cristã que ressurgiu em 1208, no Sul da França, quando sob o cerco dos cruzados cristãos, refugiam-se numa igreja, batizada com o nome de uma das suas santas mais veneradas, Maria Madalena. Lá não se refere como os canônicos sobre uma mulher pecadora, mas de uma pregadora e santa.

Excetuando sua recusa em abandonar Jesus quando ele estava sendo crucificado e a descoberta da sua ressurreição, existem poucas referências concretas às ações de Maria Madalena nos evangelhos que foram aceitos pela Igreja. Qual seria o objetivo?

Enquanto os homens, seguidores de Jesus, segundo narram os Evangelhos, fugiram para não se comprometerem, Maria Madalena estava firme no ato da crucificação. A mulher na sociedade judaica era machista e eram relegadas à vida domestica de cozinhar, cuidar da casa, educação dos filhos. Era excluída das atividades públicas. Isso era função dos homens. Então, colocar Maria Madalena como chefe de um movimento de Jesus era coisa impensável. Pedro era o líder e criticava a preferência de Jesus por ela, a quem mais amava. Os Evangelhos foram escritos por homens para os homens. Daí a necessidade de se ‘repensar’ essa ideia de que a Bíblia é ‘palavra de Deus’. Foram homens de carne e osso que criaram o Livro, chamado de ‘sagrado’. Apesar de ser a mais citada, as referências sobre ela foram mínimas por conta da cultura da sociedade da época.

A história de Maria Madalena sempre foi alvo de teorias, especulações e polêmica. Honório de Autun, pensador do século 12, atribui a ela o adultério e uma vida promíscua e por isso cheia de demônios, tendo sido salva por Jesus. Esta informação procede?

A passagem da mulher adultera citada por João (8:1-11) não é de Jesus.  Sabe-se, hoje, pelos pesquisadores de ponta, estudiosos dos manuscritos com objetivo histórico-crítico que, apesar do brilhantismo da história, de sua cativante qualidade, Madalena não foi, como muitos pensam, essa mulher da ‘história’ de João. Informa Barth EHRMAN, no livro O que Jesus disse? O que Jesus não disse? pp. 73-75; “Ao que tudo indica, ela não é parte original do Evangelho atribuído a João. De fato, não é parte original de nenhum dos Evangelhos, esta história não é de Jesus. Foi acrescentada por copistas posteriores”.  Em todo o caso, quem quer que tenha escrito o relato, não é de João. Assim, por pesquisas comparativas entre os manuscritos desde as cópias mais antigas às mais novas, essa história só apareceu sendo inserida no Evangelho atribuído a João, lá pelo século IV. É, portanto, dispiciendo qualquer vínculo de Maria Madalena com essa história. Afinal, Madalena surgiu antes da história da mulher pega em adultério. Quanto à afirmação de que ela uma mulher de vida promíscua e que era tomada de sete demônios e salva por Jesus é criação do evangelista. É uma informação falsa, conforme explicaremos no decorrer da exposição.

Cirilo de Alexandria (370-444 d.C.) e Proclus de Constantinopla (390-446 d.C.) afirmam que a aparição de Jesus ressuscitado às mulheres, em especial, à Madalena, visava honrá-las. Gregório de Antioquia, em 593 d.C., chama Madalena e as mulheres que foram ao sepulcro de "primeiras apóstolas".  Por que então a Igreja quis fazer dela uma prostituta e extrema pecadora aos olhos dos fiéis?

Comentamos em nosso livro, Milagre – falto natural ou sobrenatural – que a ressurreição, sem dúvida, pertence exclusivamente ao âmbito da ‘fé religiosa’. Na realidade, pelo nosso entendimento, tal fato nunca aconteceu. Trata-se de uma ‘acomodação’ para a sequência do Cristianismo. Para os romanos Jesus morreu na cruz por agir contra as leis do Estado. A história para por aí. Depois surge, volto a insistir, por questão de fé, a ideia da ressurreição. Maria Madalena esteve no túmulo com outras mulheres e o encontrou vazio. Daí para frente surge a história, de acordo com os pesquisadores, que, na realidade não aconteceu. Por conta desse conto afirmam os escritores de que Madalena foi a criadora do Cristianismo. Se não houvesse esta narrativa da ressurreição não haveria o Cristianismo. Por que, então, dada sua importância, com fundadora do movimento, ela levou a pecha de prostituta. Traremos no livro várias explicações, inclusive a da grande confusão do Papa Gregório Magno, em sua homilia, em que ele se confunde a pecadora anônima com Maria Madalena. Vale a pena confirmar.

As mesmas ideias por trás da criação da Maria Madalena como uma prostituta estão por trás da divinização de Maria, mãe de Jesus?

Há menção sobre isso, mas, do ponto de vista histórico, não encontramos nada. Insinua-se esta analogia. De nossa parte, entendemos que, por Maria Madalena ser uma mulher avante de seu tempo, ela ofuscava os homens. Por força de lendas, tradições e invencionices, Maria Madalena converteu-se no protótipo da pecadora arrependida. Nem sequer entre os cristãos se manteve outra ideia. Mas, Maria Madalena, a mulher mais citada nos Evangelhos, não foi uma prostituta nem esteve possuída por espíritos. É assim, no entanto, que foi apresentada essa personagem desde os primórdios do Cristianismo e, como o testemunham milhares de pinturas sobre ela: como prostituta arrependida que se retirou para o deserto, a fim de se penitenciar por seus luxuriosos pecados. Assim aparece durante séculos, descrita em infinitos sermões nas igrejas, em exercícios espirituais e em numerosos escritos católicos. Chegou-se, inclusive, a considerar Madalena como a “padroeira das prostitutas”. Veja até onde vai a criatividade humana! De uma história de uma mulher anônima atribui-se, falsamente, a Madalena a condição de mulher adúltera. Veja que toda referência a “uma mulher” na Bíblia, logo vem alguém e diz: “Deve ser Maria Madalena!”.

Em contrapartida, é verdade que a primitiva comunidade cristã tinha grande estima por Maria Madalena? 

Conforme já reportamos, segundo as informações dos Evangelhos Gnósticos, ela era considerada Santa Maria Madalena pelos fiéis cátaros na França. O que se deduz, principalmente pelos relatos dos evangelhos gnósticos, é que Madalena era a única que entendia o ensinamento de Jesus. Os discípulos, como já nos referimos alhures, eram formados de um punhado de pescadores que – com certeza – mal sabiam ler e escrever, e cujas noções sobre os textos da Bíblia provavelmente fossem escassas e errôneas, não o entendiam. Veja que até Pedro,  considerado o líder do apostolado, se queixa de que Jesus tivesse confiado a Maria Madalena segredos de sua doutrina que a eles havia ocultado; talvez, pelo que se têm informações, nos gnósticos, eles não a pudessem entender. Esses detalhes sobre Madalena ser ‘a preferida’ de Jesus, “aquela que ele mais amou”, constam nos canônicos.

Podemos afirmar que Madalena deu início ao feminismo no cristianismo primitivo, enquanto primeiro movimento histórico que pretendeu dar à mulher uma condição de “status” social igual a do homem?

Podemos pensar que sim, pois ela, apesar das barreiras da discriminação cultural da sociedade da época, e, por consequência da oposição dos apóstolos, foi a que mais se destacou, conquistando a confiança de Jesus, a ponto de ser considerada, a mais importante do grupo de seguidores. No texto 9, deste livro escrevemos: “Além de Maria Madalena, muitas mulheres que o seguiam, deveriam ser ‘atraídas’ por ele, por alguma razão muito forte. Cremos que, não só pelo seu carisma, eram atraídas também, pela mensagem fascinante para as mulheres, por pregar uma forma de vida social diferente da que vigia na sociedade judaica, e, ainda, a interação pessoal (atenção especial àqueles que precisavam de um apoio, retribuída com dedicação total à causa). Preconizava Jesus uma sociedade igualitária, sem distinção de sexo, e anunciava que, com a implantação do Reino de Deus na Terra – ele pregava a mensagem apocalíptica – haveria uma substituição das estruturas hierárquicas da época, em que a mulher não seria ‘apenas’ serviçal, sem poder de manifestação. Afinal, assim a mulher judaica do século I era vista. Sua função era dedicar-se aos afazeres domésticos (cozinhar, cuidar dos filhos, limpeza da casa, costurar e consertar roupas). Participar da vida pública, nem pensar! Ao aceitar as mulheres como discípulas, propunha ele, liberdade sem as restrições rigorosas da vigente lei judaica”.

Se o início do processo de libertação da mulher foi desencadeado por Jesus, tais avanços foram detidos por Paulo, o apóstolo, cuja doutrinação fielmente masculina foi adotada pela Igreja. Este seria o motivo do evangelho de Madalena ter sido considerado “apócrifo” e assim manter as mulheres fora do clero?

Paulo é considerado o primeiro escritor do Cristianismo, tendo suas anotações escritas, através das Cartas surgidas lá pelos anos 50, antes mesmo dos escritos canônicos. O curioso é que ele jamais cita Maria Madalena em suas Cartas. Pode pesquisar. Será que nunca ouvir falar dela? Alguns estudiosos contestam que Paulo tenha realmente dito que as mulheres não poderiam participar na Igreja e que deveriam permanecer caladas, e qualquer dúvida que tivessem, perguntassem ao marido em casa (.  Mas se disse, não seria novidade por conta da tradição cultural judaica, em que as mulheres eram discriminadas. A questão do evangelho de Maria Madalena ser considerado apócrifo, não resta dúvida era para ela não continuasse a liderança do movimento, nos primórdios do Cristianismo.

Deixe uma mensagem para nossos leitores.

Este estudo que fizemos não tem qualquer objetivo de críticas a nenhuma religião cristã. Ele é fruto de pesquisadores do mundo todo, das mais diversas Universidades. Pensamos, neste trabalho, em ‘resgatar’ a figura de Maria Madalena, a mais importante mulher dos Evangelhos que, sob a ótica machista da época, foi transformada numa ‘pecadora’ (para não dizer, numa meretriz). Ela representa você, mulher, como iniciadora do movimento de libertação.  Os fatos históricos, principalmente, após os achados dos livros gnósticos perdidos dizem que ela não foi nada disso que a Igreja criou. Havia jogo de interesse dos dirigentes homens que a mulher continuasse ajoelhada e submissa, conforme a cultura machista da época. O Vaticano, até hoje, não aceita a hierarquia, em que as mulheres possam pregar o Evangelho. Sem dúvida, a Igreja ainda se sente ameaçada pelo papel da mulher dentro da instituição. Com o passar do tempo, a repressão da Igreja contra Maria Madalena se estendeu aos seguidores dela. Na França, após mil anos da morte de Jesus, os Cátaros praticavam uma forma mista de Cristianismo, semelhante ao Gnosticismo. Eles louvavam Maria Madalena e rejeitavam o poder do Papa e de Roma. E por isso, foram perseguidos e mortos.

Não é outro o entendimento do Espiritismo, ensinando que todo ser carrega consigo uma centelha divina. A presença de Deus está em tudo e em todos, sem qualquer discriminação de gênero. O objetivo de cada um é dar pleno desenvolvimento a este gérmen divino. Então, sob a égide da lei do progresso, que é uma lei natural, cada um deve dar conta de sua administração. A felicidade é fazer ‘brilhar’ esse potencial que Jesus chamou de “pérola escondida”, “luz debaixo do alqueire”, entre outras comparações. Dentro desta ótica, recomendamos a leitura de nosso livro: Seja você mesmo!

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