Arquivo de Setembro de 2008

Anencefalia: benção ou maldição? (parte 1) por Eulália Bueno

Não podemos discorrer sobre a anencefalia sem sabermos, na realidade, o que ela representa. Para a maioria das pessoas, a anencefalia é uma caixa craniana completamente vazia e, portanto, um bebê totalmente deformado e praticamente morto. Muitos, inclusive, não crêem que haja a presença de um espírito.

O que existe dentro da nossa cabeça não é apenas o cérebro, mas o encéfalo, que é a soma do cérebro, o cerebelo e o tronco cerebral, portanto, o termo anencéfalo não é inteiramente correto, visto que a anencefalia não representa a ausência total do encéfalo, mas de parte dele.

A anencefalia é diagnosticada durante a gestação, algumas vezes através da ultrassonografia, ou exame de sangue em busca de níveis altos da Alfa Feto Proteína E para confirmação total. Muitas crianças com anencefalia morrem intra-útero ou durante o parto, mas podem sobreviver desde umas poucas horas ou dias até meses, embora mais raramente. Não importa, quando sabemos que para o espírito todo o segundo é extremamente precioso.

Por que Deus destinaria um ser assim se não houvesse finalidade?

Saber que se gera um filho portador de tão grave anomalia, que não vai ter condições de sobrevivência prolongada, é uma situação muito dolorosa e que pode causar sérios danos psicológicos, mas não cremos que de alguma forma a mulher-mãe possa ter essa dor aliviada ao escolher o aborto, ou como muitos preferem dizer, a antecipação do parto, nome que não procede quando sabemos que não haverá a mínima chance de sobrevivência para o feto.


O caso Marcela

A mãe de Marcela de Jesus, residente em Patrocínio Paulista, recebeu a notícia de que a filha que ela esperava era anencéfala, mas não desistiu de esperar por ela. Contra todas as expectativas, Marcelinha nasceu e sobreviveu por 1 ano e 8 meses, vindo a desencarnar em 1º de agosto de 2008. Ela nos deixa muito o que refletir.

Entre a gestação e o tempo de vida, foram 29 meses de aprendizado para aqueles espíritos envolvidos no caso Marcelinha. Há cursos menos intensivos que esse e diplomam pessoas. Para a pediatra Márcia Beane, que cuidou de Marcela desde o seu nascimento, lidar com ela mudou a sua vida. Diz ela:” A gente pensa que sabe tudo. Ela me ensinou que não se deve fazer pré-diagnóstico. Sou outra pessoa, mais humilde e conformada com minhas limitações.”

Atualmente, o especialista em medicina fetal e professor da USP, Thomaz Gollop, afirma que após análise mais profunda efetuada por uma junta médica, concluíram que a menina Marcela não era portadora de anencefalia, mas sim de um defeito menos grave na formação do crânio e o resquício de cérebro presente. Mas ela, em primeiro diagnóstico, foi diagnosticada anencéfala e poderia ter sido abortada. Mais um motivo para não se optar por esse caminho, pois o diagnóstico pode não ser exato.

Marcelinha não tinha prognóstico de vida, mas viveu 1 ano e 8 meses. Enquanto ela viveu, somente na cidade de Patrocínio Paulista, 319 pessoas nasceram e 159 desencarnaram. Seus pais se deram a benção de estar com ela por esse tempo precioso e hoje, com certeza, são pessoas mais ricas, principalmente de amor. Foi uma lição conjunta, pois a experiência não beneficiou apenas Marcelinha, mas todos que tiveram contato com ela.

Eulália Bueno é autora dos livros A melhor vida, Estelinha: a estrelinha que não ficou sozinha e Superando a Ansiedade.

6 comentários 15 de Setembro de 2008 às 11:37 Editora EME


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